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(13/03/2003)
A história do reggae em Cachoeira (BA): O Roots Rock Reggae bem guardado em mais um ponto do Brasil!
 
O ritmo aparece no Recôncavo em um período de tomada de consciência da negritude e da descoberta de outros elementos da contracultura. Não há como precisar o momento exato em que o reggae chega a Cachoeira, mas segundo depoimentos colhidos através de entrevistas, ainda na década de setenta começam a surgir os primeiros regueiros na cidade. Á princípio, o reggae aporta em Cachoeira juntamente com inúmeras novidades da indústria fonográfica, mas logo se destaca encontrando o seu espaço entre a juventude local.

No plano da música, o processo de integração do gosto médio dos países periféricos a padrões pré-estabelecidos promovido de início apenas pelas grandes fábricas de disco, o rádio, o cinema, pela televisão e logo pela moderna indústria dirigida ao lazer urbano (aparelhos sonoros, juke-boxes, fitas de gravação de som, de vídeo, instrumentos musicais eletrônicos, espetáculos de massa, etc.), começou a funcionar no Brasil desde o fim da Segunda Guerra Mundial. No caso em foco, as novidades da indústria fonográfica começam a aparecer quando o “milagre brasileiro” chega ao Recôncavo baiano com a tecnologia petroquímica implantada no lugar dos antigos canaviais.

Nesse quadro, deve-se levar em conta que a identificação com o ritmo acontece também em conseqüência das influências culturais deixadas, tanto na Bahia quanto na Jamaica, por grupos de escravos procedentes de uma mesma região da África. Essa herança cultural foi, muito provavelmente, guardada na memória dos negros descendentes e reproduzidas em toda sorte de manifestações.

O antropólogo Antonio Risério chama atenção para o fato de que a doce música da Jamaica encontra-se estruturalmente muito próxima de certas manifestações musicais brasileiras, como o xote e o ijexá. Ele afirma que o reggae teve um papel importante na aproximação entre as estrelas da música popular brasileira e o som dos afoxés. Para ele, a onda artística jamaicana teve um parentesco estrutural, rítmico, com elementos da nossa cultura. A utilização da música afro-americana e as tecnologias de comunicação contemporâneas levaram ao desenvolvimento do reggae jamaicano, sua apropriação e reinvenção.

Por se tratar de uma música que evidencia as mazelas do povo negro na sociedade moderna, o reggae percorre um caminho interessante em sua evolução. Desde o seu nascimento, aparece como um movimento de transformação cultural no qual as tecnologias de comunicação moderna de massa foram subversivamente adaptadas para propósitos não intencionais. Mesmo em nossos dias, o discurso dos regueiros não é bem aceito pela mídia. O reggae continua sendo um “produto” de conteúdo “subversivo” que, como o rap, sobrevive à margem de uma cultura dominante. O cachoeirano Edson Gomes trata desse aspecto em uma de suas músicas, “Sangue Azul”:

O reggae feito no Recôncavo segue o estilo mais tradicional do gênero jamaicano, conhecido como “roots reggae” ou “reggae de raíz”; com tempo 4/4, baixo na frente em tom grave, exploração melódica variada e incorporação máxima da bateria. O reggae é consumido em Cachoeira na mesma forma em que chegou à região há décadas atrás. Esse é um dos pontos importantes a serem tratados neste artigo, visto que o mesmo não ocorre em outras regiões do país. Essa preocupação tão nítida, evidenciada através da forma mais tradicional de se fazer o reggae, reforça a mítica cultivada em vários ambientes baianos, de que no Recôncavo, mais especificamente em Cachoeira, estaria a essência do reggae brasileiro: o Reggae Resistência.

Devemos levar em conta também que estamos tratando de uma cidade que, em termos populacionais, é uma das mais negras do Brasil. É importante lembrar aqui que apesar de estar há séculos submetida ao sistema dominante das elites brasileiras, a cultura negra, em Cachoeira, se aninhou, refez e recompôs de forma a legar a sucessivas gerações suas estruturas culturais dinâmicas. Isso se evidencia de forma clara através do candomblé, religião muito importante na região. Ainda nos tempos áureos, quando Cachoeira gozava de privilegiada situação econômica, foram fundadas associações e irmandades que organizavam festas marcadas pelo sincretismo religioso.

Muitas destas irmandades e associações, como a Irmandade da Boa Morte e as Filarmônicas Lira Ceciliana e Minerva Cachoeirana, são atuantes até hoje. Vale ressaltar que a Lira Ceciliana foi fundada em 1870 por negros letrados e profissionais liberais mulatos, num esforço para trilhar caminhos paralelos aos que eram impostos pela ideologia dominante. A tradição cultural e a religiosidade são traços fortes deste povo, que também abraçou a música como forma de expressão. A música, que sempre esteve presente no dia a dia dessa população, se constitui sem dúvida alguma como importante meio de comunicação para que negros e descendentes pudessem transmitir a sua cultura diante das adversidades do regime formal. O candomblé, a capoeira e o samba de roda são algumas das formas de resistência da negritude local que ajudaram a reconstruir ao longo dos séculos uma identidade tão singular.

É neste cenário que a partir da década de 70, Cachoeira vive uma espécie de reflorescimento intelectual que motiva os jovens a buscarem uma reflexão crítica sobre si mesmos e sobre a sua identidade cultural. A Casa Paulo Dias Adorno, sob a direção do antropólogo Roberto Pinho e a AEPUC (Associação de Estudantes Pré e Universitários de Cachoeira) foram espaços onde a juventude local tinha acesso a informes, leituras e debates sobre política e diversas linguagens artísticas. A riqueza cultural da cidade chamou a atenção de pesquisadores como Vivaldo Costa Lima e Jeferson Bacelar.

A cidade negra e musical cujo ethos possibilitou o surgimento de muitos artistas, chamou a atenção também dos tropicalistas, entre eles, Gilberto Gil e Caetano Veloso, da vizinha cidade de Santo Amaro. Assim, o aparato artístico popular foi viva expressão de uma sociedade que ganhou decisivos traços populares suscitados pela crise de estagnação. O reggae encontrou em Cachoeira um ambiente altamente favorável para se estabelecer. Além da empatia étnica-racial, o ritmo contou com outros bons motivos para florescer: ensimesmamento econômico, letargia social e um forte veio criativo popular. Atualmente, seus músicos mais conhecidos são Edson Gomes, Sine Calmon, Nengo Vieira e o forrozeiro Danton.

Considerada como celeiro do reggae, Cachoeira tem nos trabalhos dos “filhos da terra” a expressão máxima da absorção dessa contracultura de diáspora. Desde o começo da década de oitenta que o reggae produzido no Recôncavo, o Reggae Resistência, como é mais conhecido, vem chamando a atenção de produtores culturais e empresários. Os primeiros passos foram dados nas participações em festivais, onde os músicos Nengo Vieira e Edson Gomes arrebataram prêmios e troféus. Em 1985 foram vencedores do Festival Canta Bahia. Em 1986 Nengo e Edson ganham prêmios significativos vencendo o Festival Vem de Banda e o Troféu Caymmi, respectivamente.

Em 1988, Edson Gomes é contratado pela gravadora EMI Odeon e grava o seu primeiro disco, o Reggae Resistência.
O trabalho de Edson passa a ser reconhecido pela mídia e seu show requisitado em várias partes do Brasil. Nesse período, o músico Nengo Vieira passou a acompanhar Edson Gomes como guitarrista da banda Cão de Raça. Também foi arranjador de várias músicas de Edson, seu parceiro na letra de Fala só de Amor. Até 1990, músicos como Sine Calmon, Marcos Oliveira, João Teoria e Quinho (todos Remanescentes) passaram pela banda Cão de Raça.

Destaco o pioneirismo do reggae cachoeirano em relação a algumas mudanças ocorridas na música baiana produzida nos últimos 15 anos. Essa diferença é notada a partir do segundo disco de Edson Gomes, o Recôncavo. O primeiro disco de Edson Gomes, por exemplo, foi gravado na WR com bateria eletrônica, que era o que se usava na época com a Axé Music. Depois desse disco viu-se a necessidade de incorporar a bateria acústica e o que foi produzido desde então, ganhou melhor qualidade musical e sonora. Um outro instrumento que teve maior brilho ao ser incorporado num tom mais grave, foi o contrabaixo. Foi depois da gravação do disco do Remanescentes, também nos estúdios da WR, em 1992, que houve na música baiana (leia-se música produzida na Bahia) uma mudança perceptível em relação ao tom do contrabaixo.

No começo da década de noventa, quando nasce o grupo Remanescentes, seus fundadores fixam residência em Cachoeira. Assim, Nengo Vieira, Sine Calmon, Tin Tim Gomes, Valéria Leite, João Teoria, Marcos Oliveira, Wilson Tororó e Quinho, passam a trabalhar juntos até meados da década. Nesse período fazem apresentações por quase todo o Recôncavo. Antes da dissolução, em 1994, o grupo grava um disco nos estúdios da WR, que até hoje permanece inédito no mercado fonográfico.

Com o final do Remanescentes, Nengo Vieira, Sine Calmon e Tin Tim Gomes seguem carreira solo. Antes disso, Nengo e Tin Tim tentaram dar continuidade ao grupo, mas desistiram um tempo depois. Marcos Oliveira chegou a fundar com Sine Calmon o grupo Sojah, que não durou muito tempo. Logo, Marcos assumiu o comando da banda Dystorção e Sine passa a se apresentar com a sua Morrão Fumegante. Em 1998, a sua música Niambhingy Blues é a mais executada durante o verão baiano, ganhando inclusive regravação na voz de Ivete Sangalo. Como conseqüência disso, Sine grava o seu primeiro disco pela Atração Fonográfica. Nos anos seguintes os outros fundadores do Remanescentes, Nengo Vieira, Tin Tim Gomes e Marcos Oliveira também gravam seus discos.

DISCOGRAFIA


 Edson Gomes
 Gomes, Edson. Reggae Resistência. EMI Odeon, 1988.
Gomes, Edson. Recôncavo. EMI Odeon, 1990.
Gomes, Edson. Campo de Batalha. EMI Odeon, 1991.
Gomes, Edson. Meus Momentos 1. EMI Odeon, 1994.
Gomes, Edson. Meus Momentos 2. EMI Odeon, 1994.
Gomes, Edson. Resgate Fatal. EMI Odeon, 1995.
Gomes, Edson. Apocalipse. EMI Odeon, 1998.
Vários. Tributo a Bob Marley. Viu. Rastafari. Indie Records, 2000.
Vários. Kaya no Reggae. Malandrinha. Bahia Discos, 2001.
Gomes, Edson. Acorde, Levante, Lute. ATRAÇÃO Fonográfica, 2001.

 Sine Calmon
Calmon, Sine. Fogo na Babilônia. ATRAÇÃO Fonográfica, 1997.
Calmon, Sine. Rosa de Saron. ATRAÇÃO Fonográfica, 1999.
Calmon, Sine. Eu Vejo. ATRAÇÃO Fonográfica, 2000.
Vários. Kaya no Reggae. Ravengar. BAHIA Discos, 2001.

 Nengo Vieira
Vieira, Nengo & Tribo D’Abraão. Somos Libertos. ATRAÇÃO Fonográfica, 1998.
Vários. Kaya no Reggae. Chegada. BAHIA Discos, 2001.
Vieira, Nengo. Mata Atlântica. INDEPENDENTE, 2002.

 Tin Tim Gomes
Gomes, Tin Tim & Manassés. Pedra Sobre Pedras. INDEPENDENTE, 1999.

 Marcos Oliveira
Oliveira, Marcos & Dystorção. Dystorção. INDEPENDENTE, 2000.

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Fonte : Bárbara Falcón


 

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